Liberdade Liberdade


Hoje é inicio de maio. No dia 27, em teoria, meu namorado vem me visitar no Brasil. E é curioso perceber como, quando começo a escrever sobre relacionamento, acabo voltando de novo para a carreira, como se no fundo as duas coisas, neste momento, esbarrassem numa mesma sensação de aprisionamento.

Há alguns anos, tive uma experiência afetiva bastante difícil, e isso me deixou mais cautelosa. Então, quando entrei em um novo relacionamento, fiquei atenta, preocupada, com medo de repetir certas angústias. Só que, ao mesmo tempo, eu não sei se essa sensação de estar presa vem exatamente do relacionamento. Não estou em uma relação possessiva. Também não acho que esse seja propriamente o problema. Às vezes penso que esse medo de aprisionamento vem de outro lugar.

Talvez ele venha da carreira.

Acho que sinto que estou presa em um plano anterior de vida, um percurso que venho pavimentando há muito tempo. Durante muito tempo, esse percurso foi a arte. Também considerei a carreira universitária, mas mesmo pensando na possibilidade de um concurso para professora, não sei se me vejo mais nesse meio. É um ambiente que, para mim, acabou ficando muito associado a desgaste e frustração.

Não acho que a solução que encontrei de estudar para o concurso de admissão à carreira diplomática. seja uma solução ideal ou mágica. Mas é pelo menos um caminho que me irrita menos, que me parece mais respirável. Consigo me ver nessa profissão, principalmente se eu pudesse atuar com cultura, embora eu saiba que a vida diplomática não funciona a partir da vontade individual. É uma carreira em que, muitas vezes, se executa o que é determinado.

No fim, comecei querendo falar de relacionamento, e mais uma vez estou terminando falando de carreira em outra anotação deste blog. 

Outro dia, eu estava em um café com um amigo do mestrado, e ele me perguntou por que eu sou tão perfeccionista. Eu nem sei se me vejo assim. Na verdade, sinto que estou fazendo o mestrado muito mais porque eu sabia que seria capaz de entrar, porque fui uma boa aluna, porque a bolsa me dá um certo amparo financeiro por dois anos. Não porque eu tenha plena clareza do que quero fazer da vida.

Eu ainda não decidi se quero ser artista, se quero seguir outro caminho, se quero reorganizar tudo do zero. E, no meio disso, também conheci alguém. Fico feliz por estar em um relacionamento que considero saudável em muitos aspectos. Mas, ao mesmo tempo, percebo ruídos de comunicação, dificuldades de ajuste, desgastes que talvez tenham a ver com distância, países, idiomas, ritmos diferentes, com expectativas diferentes. E isso me deixa confusa.

A verdade é que eu não sei por que me sinto presa. Não entendo por que me sinto presa em uma relação, nem por que me sinto presa nas artes. Acho que, em alguns momentos, bate aquele impulso de querer terminar tudo, terminar a relação, terminar a carreira, terminar o ciclo inteiro. Como se nada me satisfizesse de fato. E eu não sei se o problema está em mim ou nos contextos em que estou inserida.

Pensando nisso, lembrei de uma obra minha que ainda está sem título. Inicialmente, ela era apenas uma peça feita de fitas, num formato parecido com uma peneira, com fotografias de pássaros. E, se eu for pensar bem, nem sei por que insisti tanto nesse formato de peneira associado aos pássaros. Talvez porque, na minha cabeça, aquela forma lembrasse um ninho. Um ninho não é totalmente vedado, ele deixa que certas coisas passem, mas preserva o ovo. Havia algo nessa imagem que me parecia acolhedor.

Depois, um amigo me deu um feedback dizendo que aquela minha espécie de peneira parecia mais uma gaiola.

Talvez porque, no fundo, eu quisesse construir um ninho. Mas, de algum modo, sinto que acabo sempre construindo gaiolas. 

Simulação 3D da obra instalativa no blender.


 

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