Eu vivo constantemente em uma certa berlinda entre querer desistir da carreira artística e seguir um futuro profissional mais comum dentro da minha rede familiar, como escolher uma carreira pública e passar os próximos anos da minha vida estudando loucamente a Constituição, respondendo questionários de provas anteriores e tentando me encaixar em algum cargo.
Não sei. Sinto que a carreira artística me faz encarar uma realidade bastante cruel do circuito. Às vezes, eu não sei se sou uma profissional ou apenas alguém viciada em jogos de aposta, porque há algo muito aleatório na forma como as bancas de avaliação são constituídas em salões, editais e ocupações de galeria.
Tudo me parece muito caótico, muito confuso. Parece uma grande escadaria que eu não consigo superar e eu nem sei por que me esforço tanto para superar esse sistema.
Também não sei por que é tão difícil, para mim, lidar com esse grande monstro que virou a folha de papel, os desenhos e outras coisas que antes eram tão naturais no meu cotidiano, na hora de pensar e fazer arte. Parece que, cada vez mais, o próprio ofício artístico vai se transformando em um monstro na minha cabeça. E isso me dá medo.
Às vezes, quando os projetos não vão para frente, quando eu idealizo uma proposta e ela recebe um “não” em um edital, tenho a sensação de estar lidando com sucessivos abortos. Eu entendo que, às vezes, uma ideia precisa encontrar um lugar específico no futuro para ser abraçada. Entendo que dar tempo ao tempo também amadurece uma proposta, melhora certas escolhas e abre outros caminhos. Mas ainda assim é frustrante.
É frustrante essa carreira. É frustrante o sistema. É frustrante a forma como ele se articula. É frustrante ver um circuito que diz querer inovação, mas que, quando alguém inova, repudia essa pessoa porque, no fundo, espera que ela responda a uma tendência muito específica do momento.
Sinto que houve, durante um tempo, uma grande tendência em torno de pautas racializadas, fossem indígenas ou afrodescendentes. Agora, percebo uma força muito grande em torno de obras que envolvem terra ou um uso muito específico de determinados materiais.
No geral, parece que eu não me encaixo nessa profissão. Não me encaixo no que o circuito quer. Sinto que essa frustração afeta até a forma como eu me comunico, como se tudo o que eu faço estivesse errado.
Eu não queria trazer um lado excessivamente pessimista sobre a vida ou sobre o meu próprio fazer. Mas acho que também é importante compartilhar um pouco essas dores. Porque, em algum momento, todo mundo vai se sentir assim. Todo mundo vai se perguntar se ainda faz sentido continuar tentando.
Sinto que, de fato, comecei a produzir a partir de 2023. Antes disso, eu ainda estava tentando entender como me inserir no circuito. Eu trabalhava muito com arte e tecnologia e recebia muitos feedbacks de que aquilo não combinava com o Nordeste.
Não existem muitos artistas produzindo isso por aqui. E parece que as pessoas querem do Nordeste um fetiche muito específico, associado à seca, à fome, à miséria. Minha obra não oferece isso.
Ao mesmo tempo, eu me afastei naturalmente da arte e tecnologia porque as próprias instituições não estavam preparadas para esse tipo de produção. Também era algo que demandava muitos recursos. No início, eu não tinha condições financeiras para sustentar esses processos, então comecei a explorar mídias mais baratas, como o papel e os meios impressos.
Hoje, em 2026, quando olho para o meu portfólio, vejo que ele está muito pautado nessa experimentação com o papel e suas possibilidades. Mas ainda tenho muita dificuldade de entender por que permaneço nesse circuito. Por que continuo tentando subir essa escadaria em forma de carreira?
Às vezes, parece que estou presa e amarrada por um monstro de papel gigante, que não me deixa pensar outras possibilidades de carreira. Porque eu amo produzir arte. Amo esse ofício. Amo montar instalações, pensar exposições, criar atmosferas e organizar visualmente um pensamento no espaço. Mas o circuito, às vezes, é uma tortura.
A trajetória do artista emergente é uma tortura. Não existem espaços específicos para artistas em início de carreira. Também não existe clareza para quem já está há mais tempo no circuito entender se aquele edital ainda é para essa pessoa ou não. Falta clareza nos editais. Falta clareza no perfil de artista que as instituições querem contemplar.
Às vezes, vejo pessoas com anos de carreira sendo selecionadas em editais que vão pagar apenas cinco mil reais. Não sei. Eu não entendo como funciona a estrutura de permanência depois que uma pessoa amadurece no circuito. Parece que nunca há garantia de estabilidade. Parece que a gente vive em uma eterna corda bamba.
Espero que, no futuro, eu releia essas minhas palavras e dê muita risada. Acho que são devaneios que podem mudar. Mas, neste momento, é frustrante e impotente permanecer e resistir nessa profissão.

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