Cheganças e partidas

 


Entre as anotações do dia está o fato de que eu não compreendo muito bem como demorei tanto para perceber que a carreira artística, no geral, parece mais um jogo de apostas do que necessariamente uma carreira.

Sinceramente, eu não sei se sou viciada em uma espécie de jogo do tigrinho disfarçado de profissão, ou se de fato existe algum sentido no que faço.

Também me assusta ver o quanto a minha produção se modificou e foi sendo podada. Claro que isso aconteceu por causa do circuito, mas também porque, pouco a pouco, acho que fui perdendo a diversão e a graça que sentia inicialmente. Nem sei por que isso é tão gritante.

Acho que minha carreira começa muito com um viés de brincadeira. Eu só tinha um nome de usuário no Instagram (Lohanna Oliveira (LO) + (NELAS) nas galerias de arte, redes sociais e etc), algumas fotocolagens que fazia por diversão no meu tempo livre, e as coisas tomaram uma proporção que nem eu esperava.

Sinto que boa parte do que ganhei em editais, salões e afins provavelmente teve um peso muito grande associado ao texto que escrevo. Acho que sou muito boa em articular conceitos e temas. Compreendo as temáticas que estão mais em evidência. Mas não sei até que ponto quero dobrar minha produção para entrar nessas tendências.

Às vezes fico feliz quando encontro artistas que me inspiram justamente por não estarem produzindo aquilo que as principais temáticas parecem demandar, como pautas racializadas ou materiais voltados para a terra.

Eu sinto que vou tentar o meu melhor para entender se vou prosseguir nessa profissão. Acho que minha resolução final talvez seja buscar uma carreira pública, ou algo que faça mais sentido para mim, principalmente porque sou uma pessoa com deficiência e almejo ter recursos suficientes para custear tratamentos de boa qualidade.

Às vezes, as artes visuais me parecem uma profissão em que fui muito inocente ao tentar me inserir. No início, eu queria o diploma apenas para prestar concurso público. Quando de fato comecei a atuar como artista, fui cada vez mais postergando essa ideia, porque pensava que queria viajar, conhecer lugares e viver experiências. E isso eu realmente consegui com as artes visuais. Mas essa carreira não me dá nenhuma garantia de uma vida equilibrada.

Eu vivo estressada. Vivo olhando uma planilha de Excel em que marco de verde os editais que consigo, de rosa os editais em que não sou selecionada, e de amarelo aqueles em que ainda estou aguardando resposta. Eu sempre ouvi isso dos meus amigos: a cada quinze, vinte editais, um é selecionado. Mas é complicado.

Sinto que tenho sucessivos abortos para lidar com cada ideia que não vai para frente.

Não sei por quanto tempo vou conseguir continuar nessa profissão, mas vou tentar o meu melhor para não ficar sem esperança em relação ao futuro. Talvez pensar em uma carreira pública seja a única esperança que tenho neste momento, para não ficar de vez imersa em uma insanidade mental.

Comecei a trabalhar muito com instalações de papel, em parte para baratear os custos de produção das minhas obras. Mas parece que nada do que faço é suficiente para me encaixar ou ser vista. Talvez porque este não seja o meu momento, nem a minha onda, nem a minha perspectiva.

Tentei me inserir em algumas bolhas, até mesmo na bolha de levantar uma bandeira PCD. Mas percebi que esse processo machuca muito, porque falar de deficiência também é falar de muitos traumas que, às vezes, eu nem sei como elaborar. Então eu me pergunto até que ponto vale a pena o dinheiro que recebo, até que ponto vale a pena a visibilidade que tenho. Tudo parece muito cansativo, exaustivo e sem sentido.

Acho que é uma sucessão de resistências. Eu atuo fora do eixo Rio-São Paulo e preciso lidar com diversos estigmas, inclusive aqueles associados à própria região Nordeste e também ao Norte, de onde venho. Não trabalho a Amazônia como as pessoas querem. Não trabalho o Nordeste como as pessoas querem.

O fruir artístico me dá medo. Lidar com papel, lidar com desenhos, lidar com projetos, tudo isso começou a me assustar. E foi assim que essa imagem apareceu para mim, um grande monstro de fitas, um grande monstro de papel. Talvez porque eu ainda não tivesse percebido as amarras que estavam me prendendo aqui.



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